AQUI, A COERÊNCIA DE UM PROFESSOR DE PORTUGUÊS QUE GOSTA DE GATOS E É TORCEDOR DO FLUMINENSE

JORNAL DO BRASIL, 14 jun. 2008

 

Por Sergio de Carvalho Pachá

lexicógrafo-chefe da Academia Brasileira de Letras

 

 

Sou favorável à unificação dos sistemas ortográficos do Brasil e de Portugal. Mas sou desfavorável a que se façam as coisas pela metade ou a que se mude uma coisa boa em outra pior.

Dou-lhe exemplos de um e outro caso. Uma das mais notórias falhas do sistema ortográfico de 1943, ainda hoje vigente no Brasil, com as modificações nele introduzidas em 1971, diz respeito às regras que governam o uso do hífen. Em matéria de arbitrariedade e incoerência, acredite, elas são verdadeiramente imbatíveis. Assim, sempre que um vocábulo com h inicial é precedido pelos prefixos ante-, anti-, arqui-, auto-, contra-, ex-, extra-, hiper-, infra-, intra-, neo-, pan-, pós-, pré-, pro-, proto-, pseudo-, sem-, semi-, sobre-, sota-, soto-, super-, ultra-, vice e vizo-, o hífen é de rigor: ante-hipófise, anti-herói, arqui-hiperbólico, auto-hipnose, contra-habitual, ex-heroinômano, extra-hospitalar, hiper-hidrose, infra-hióideo, intra-hepático, neo-hipocrático, pan-helênico, pós-hipofisário, pré-hominídeo, pró-homem, proto-história, pseudo-hérnia, semi-hebdomadário, sobre-humano, super-herói, ultra-hipérbole. Se, porém, o prefixo for a- ou sua variante an-, des-, in- e sub- , deve-se eliminar o agá etimológico inicial e adjungir o prefixo à vogal que se lhe segue: teremos, assim, aistórico ao lado de anti-histórico, anepático ao lado de supra-hepático, desumano, inumano e subumano ao lado de extra-humano, pré-humano e sobre-humano. Há alguma lógica nisto? Nenhuma.

 

Anti-histórico e aistórico

Ora bem: que fazem as novas regras ortográficas prestes a serem impostas aos países de língua portuguesa que aceitaram e promulgaram o tal acordo? Consertam o disparate clamoroso que manda escrever anti-histórico e aistórico, sobre-humano e subumano, supra-hepático e anepático? De modo algum. Fica tudo como dantes, quartel-general em Abrantes.

Por outro lado, a lei 5.765, de 18 de dezembro de 1971, que, em boa hora, suprimiu o acento circunflexo diferencial do e e do o fechado das palavras homógrafas de outras cujo e ou o tônico fossem abertos (escrevia-se, por exemplo, dêle, para ninguém confundir este pronome com a terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo delir, dele, e tôda, porque em algum lugar do mundo existe um pássaro fissirrostro chamado toda, com o aberto), teve o bom senso de deixar intocada a regra que prescrevia se assinalasse com acento agudo a sílaba tônica dos vocábulos que tivessem homógrafos átonos.

Por esta razão grafamos pára, do verbo parar, a fim de distingui-lo da preposição para, que é átona; péla, substantivo feminino e terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo pelar, a fim de distingui-lo de pela, que vem a ser a contração da antiga preposição per com a forma arcaica do artigo definido feminino, la, contração esta que é átona.

 

"Ele pára para ouvir melhor"

Estes acentos são úteis, por distinguirem visualmente realidades auditivas diferentes, ou seja, os vocábulos com tonicidade própria dos vocábulos sem tonicidade alguma (e daí o serem chamados átonos), que se apóiam na palavra que se lhes segue na cadeia sonora da frase, com ela constituindo um único vocábulo fonológico: numa frase como "Ele pára para ouvir melhor" ocorrem apenas quatro acentos, a saber, na primeira sílaba de Ele, na primeira sílaba de pára, na última sílaba de par(a)ouvir e na última de melhor. Esta é uma das regras de acentuação úteis e, portanto, defensáveis, que o novo acordo ortográfico decidiu abolir. Mas, incoerente que é, mantém o acento circunflexo sobre o o do verbo pôr, não vá alguém confundi-lo com a preposição por, que é átona. E durma-se com este barulho.

Poderia dar-lhe outros exemplos de alterações iminentes que reputo danosas à ortoépia, que é a reta pronunciação das palavras do idioma. Mas julgo que os exemplos acima já ilustram suficientemente o que vem por aí. E, se mudar por mudar é frivolidade que nada justifica, mudar para piorar é simplesmente inadmissível.

 

A unificação desnecessária

Ainda não tive a oportunidade de debruçar-me detidamente sobre cada uma das novas regras, interrogando-me sobre todas as conseqüências a que poderão levar. Um de meus colegas e amigos, contudo, estudioso do idioma e excelente lexicógrafo, já comentou, em conversa particular, que o novo sistema deixa várias questões importantes por resolver. Suponho que o tempo se encarregará de mostrar o acerto da observação de meu amigo.

As mudanças que estão para efetivar-se nada têm que ver com a língua portuguesa, mas única e exclusivamente com a representação escrita da mesma, o que é algo muito diferente. A língua portuguesa não precisa, nem jamais precisou, ser unificada, pela simples razão que sempre foi uma só, sem embargo das diferenças de pronúncia, de ritmo frasal, de escolha vocabular e de construção da frase, fáceis de observar entre as variedades européia, americana e, já agora, africanas do idioma comum (nada digo da recém-criada República de Timor, no sudeste asiático, porque, segundo me consta, embora seja o português a língua oficial da nova nação, é insignificante o número de timorenses que dele se servem).

Um sistema ortográfico pode mudar repentinamente, por lei ou por decreto, e, por vezes, isto ocorre de forma radical: no final da década de 1920, a Turquia substituiu seu sistema de escrita, baseado no alfabeto árabe, pelo alfabeto latino.

 

Por uma língua viva

Já as línguas mudam constantemente, mas de modo geralmente imperceptível à maioria dos falantes. Nos anos que se seguiram à chegada e estabelecimento da família real portuguesa à capital da grande colônia americana, a pouco e pouco os nativos do Rio de Janeiro, que, até então, haviam pronunciado o s, quer final, quer medial, seguido de consoante, como o resto do Brasil, ou seja, como uma consoante linguodental surda ou sonora, dependendo do ambiente fonético em que se encontrasse, começaram a imitar a fala da Corte e, com isto, a pronunciar o s à lisboeta, ou seja, como uma consoante palatal surda ou sonora, quer em posição final, quer em posição medial, seguida de consoante.

E é por isso que, até hoje, os cariocas chiam onde os mineiros, os capixabas, os paulistas, os nordestinos, os paraenses e os gaúchos sibilam. Mas esta mudança não se fez por decreto real, visto que rei algum teria o poder de promovê-la. Fez-se espontaneamente e, ao que é provável, despercebida à imensa maioria dos falantes. Pois é assim que as línguas mudam: lentamente, em silêncio, sem parar.

 

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