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31 DE OUTUBRO: ANIVERSÁRIO DO POETA MAIOR
Carlos Drummond de Andrade
Também, que idéia a sua: andar a pé,
margeando a Lagoa Rodrigo de Freitas, depois do jantar.
O vulto caminhava
em sua direção, chegou bem perto, estacou à sua frente. Decerto ia
pedir-lhe um auxílio.
— Não tenho trocado. Mas tenho cigarros. Quer
um?
— Não fumo, respondeu o outro.
Então ele queria é saber as
horas. Levantou o antebraço esquerdo, consultou o relógio:
— 9 e 17... 9
e 20, talvez. Andaram mexendo nele lá em casa.
— Não estou querendo saber
quantas horas são. Prefiro o relógio.
— Como?
— Já disse. Vai
passando o relógio.
— Mas ...
— Quer que eu mesmo tire? Pode
machucar.
— Não. Eu tiro sozinho. Quer dizer... Estou meio sem jeito.
Essa fivelinha enguiça quando menos se espera. Por favor, me ajude.
O
outro ajudou, a pulseira não era mesmo fácil de desatar. Afinal, o relógio mudou
de dono.
— Agora posso continuar?
— Continuar o
quê?
— O passeio. Eu estava passeando, não viu?
— Vi,
sim. Espera um pouco.
— Esperar o quê?
— Passa a
carteira.
— Mas...
— Quer que eu também ajude a tirar? Você
não faz nada sozinho, nessa idade?
— Não é isso. Eu pensava que o
relógio fosse bastante. Não é um relógio qualquer, veja bem. Coisa fina. Ainda
não acabei de pagar...
— E eu com isso? Então vou deixar o serviço
pela metade?
— Bom, eu tiro a carteira. Mas vamos fazer um
trato.
— Diga.
— Tou com dois mil cruzeiros. Lhe dou mil e fico
com mil.
— Engraçadinho, hem? Desde quando o assaltante reparte com
o assaltado o produto do assalto?
— Mas você não se identificou como
assaltante. Como é que eu podia saber?
— É que eu não gosto de
assustar. Sou contra isso de encostar o metal na testa do cara. Sou civilizado,
manja?
— Por isso mesmo que é civilizado, você podia rachar comigo o
dinheiro. Ele me faz falta, palavra de honra.
— Pera aí. Se você
acha que é preciso mostrar revólver, eu mostro.
— Não precisa, não
precisa.
— Essa de rachar o legume... Pensa um pouco, amizade. Você
está querendo me assaltar, e diz isso com a maior cara-de-pau.
— Eu,
assaltar?! Se o dinheiro é meu, então estou assaltando a mim
mesmo.
— Calma. Não baralha mais as coisas. Sou eu o assaltante, não
sou?
— Claro.
— Você, o assaltado.
Certo?
— Confere.
— Então deixa de poesia e passa pra cá
os dois mil. Se é que são só dois mil.
— Acha que eu minto? Olha
aqui as quatro notas de quinhentos. Veja se tem mais dinheiro na carteira. Se
achar uma nota de 10, de cinco cruzeiros, de um, tudo é seu. Quando eu confundi
você com um, mendigo (desculpe, não reparei bem) e disse que não tinha trocado,
é porque não tinha trocado mesmo.
— Tá bom, não se
discute.
— Vamos, procure nos... nos escaninhos.
— Sei lá o
que é isso. Também não gosto de mexer nos guardados dos outros. Você me passa a
carteira, ela fica sendo minha, aí eu mexo nela à vontade.
— Deixe
ao menos tirar os documentos?
— Deixo. Pode até ficar com a
carteira. Eu não coleciono. Mas rachar com você, isso de jeito nenhum. É contra
as regras.
— Nem uma de quinhentos? Uma só.
— Nada. O
mais que eu posso fazer é dar dinheiro pro ônibus. Mas nem isso você precisa.
Pela pinta se vê que mora perto.
— Nem eu ia aceitar dinheiro de
você.
— Orgulhoso, hem? Fique sabendo que tenho ajudado muita gente
neste mundo. Bom, tudo legal. Até outra vez. Mas antes, uma
lembrancinha.
Sacou da arma e deu-lhe um tiro no pé.
Texto extraído do livro "Os dias
lindos", Livraria José Olympio Editora — Rio de Janeiro, 1977, pág.
54.
Conheça o autor e sua obra visitando "Biografias".
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anita / elza / alice
:: postado às
19h21
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