O SÃO JOÃO BATISTA

No inverno de 1968, alguns meses antes do golpe militar, passeava pelos calçadões da Cidade Maravilhosa um simpático senhor octogenário. Parou para apoiar-se à grade do Iate Clube e aproveitou para fazer charmosas poses para um fotógrafo da imprensa carioca. Talvez sua derradeira fotografia. Adorava tirar retratos. Ao ver suas fotos, confessava: "Ele ri com muita facilidade porque é dentuço". Quando jovem, pensou em ser arquiteto. Entretanto, sua precária saúde o impediu de seguir os passos do pai.

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho nasceu em Recife e desde os 18 anos vinha brincando de esconde-esconde com a morte. Aos 6 anos, passou a imaginar-se dentro de uma aventura épica com heróicos personagens mitológicos. Esse período que ele mesmo denominou de “fase de armação de sua mitologia” durou quatro inesquecíveis anos. “Quando comparo esses quatro anos de minha meninice a quaisquer outros de minha vida de adulto, fico espantado do vazio destes últimos em cotejo com a densidade daquela quadra distante.”

Ele morou em várias cidades: Recife, Rio de Janeiro, Santos, São Paulo e novamente Rio de Janeiro. Passou uma temporada na Europa para tratar do problema no pulmão. Deixou de fumar duas vezes, e considerava mais fácil parar de fumar do que fumar pouco.

Mesmo dedicando a sua vida à literatura, era um homem de hábitos simples, de caráter, desprendido e despretensioso. Diferentemente de muitos amigos seus, não tinha gosto requintado: adorava jiló, cinema falado, rádio e de poetas de segunda ordem. Ele mesmo preparava o café da manhã. E fazia muito bem sorvete de café e doce de leite.

Gostava também de todos os gêneros literários sem distinção. Não se casou por obra do destino. Mas gostava da solidão. Tinha predileção pela música, dos compositores antigos e modernos. Vários compositores brasileiros musicaram suas poesias. Um deles foi o amigo Jayme Ovalle.

Preferia visitar os amigos a ser visitado.  Do Rio, mandou de presente uma máquina de escrever ao amigo Mário de Andrade, que a batizou de Manuela em homenagem ao poeta. Segundo Mário, “Manuel Bandeira é o São João Batista da poesia moderna no Brasil”.

“Salve Manuel, Bandeira do Brasil.” *

 

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* Palavra de Guilherme de Almeida para a primeira edição de Estrela da vida inteira.

 

Manuel Bandeira faleceu no Hospital Samaritano no bairro de Botafogo no Rio de Janeiro, às 12 horas e 50 minutos do dia 13 de outubro de 1968, e foi sepultado no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras, no Cemitério São João Batista.

 

:: anita / elza / alice :: postado às 17h18
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"Eu sou um escritor difícil
Que a muita gente enquizila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar duma vez:
É só tirar a cortina
Que entra luz nesta escurez."

(MÁRIO DE ANDRADE)




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