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ATÉ QUE ENFIM UM IMORTAL COERENTE!!!
JORNAL DO BRASIL, 14 jun. 2008
Por Sergio de Carvalho Pachá
lexicógrafo-chefe da Academia Brasileira de Letras
Sou favorável à unificação dos sistemas ortográficos do Brasil e de Portugal. Mas sou desfavorável a que se façam as coisas pela metade ou a que se mude uma coisa boa em outra pior.
Dou-lhe exemplos de um e outro caso. Uma das mais notórias falhas do sistema ortográfico de 1943, ainda hoje vigente no Brasil, com as modificações nele introduzidas em 1971, diz respeito às regras que governam o uso do hífen. Em matéria de arbitrariedade e incoerência, acredite, elas são verdadeiramente imbatíveis. Assim, sempre que um vocábulo com h inicial é precedido pelos prefixos ante-, anti-, arqui-, auto-, contra-, ex-, extra-, hiper-, infra-, intra-, neo-, pan-, pós-, pré-, pro-, proto-, pseudo-, sem-, semi-, sobre-, sota-, soto-, super-, ultra-, vice e vizo-, o hífen é de rigor: ante-hipófise, anti-herói, arqui-hiperbólico, auto-hipnose, contra-habitual, ex-heroinômano, extra-hospitalar, hiper-hidrose, infra-hióideo, intra-hepático, neo-hipocrático, pan-helênico, pós-hipofisário, pré-hominídeo, pró-homem, proto-história, pseudo-hérnia, semi-hebdomadário, sobre-humano, super-herói, ultra-hipérbole. Se, porém, o prefixo for a- ou sua variante an-, des-, in- e sub- , deve-se eliminar o agá etimológico inicial e adjungir o prefixo à vogal que se lhe segue: teremos, assim, aistórico ao lado de anti-histórico, anepático ao lado de supra-hepático, desumano, inumano e subumano ao lado de extra-humano, pré-humano e sobre-humano. Há alguma lógica nisto? Nenhuma.
Anti-histórico e aistórico
Ora bem: que fazem as novas regras ortográficas prestes a serem impostas aos países de língua portuguesa que aceitaram e promulgaram o tal acordo? Consertam o disparate clamoroso que manda escrever anti-histórico e aistórico, sobre-humano e subumano, supra-hepático e anepático? De modo algum. Fica tudo como dantes, quartel-general em Abrantes.
Por outro lado, a lei 5.765, de 18 de dezembro de 1971, que, em boa hora, suprimiu o acento circunflexo diferencial do e e do o fechado das palavras homógrafas de outras cujo e ou o tônico fossem abertos (escrevia-se, por exemplo, dêle, para ninguém confundir este pronome com a terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo delir, dele, e tôda, porque em algum lugar do mundo existe um pássaro fissirrostro chamado toda, com o aberto), teve o bom senso de deixar intocada a regra que prescrevia se assinalasse com acento agudo a sílaba tônica dos vocábulos que tivessem homógrafos átonos.
Por esta razão grafamos pára, do verbo parar, a fim de distingui-lo da preposição para, que é átona; péla, substantivo feminino e terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo pelar, a fim de distingui-lo de pela, que vem a ser a contração da antiga preposição per com a forma arcaica do artigo definido feminino, la, contração esta que é átona.
"Ele pára para ouvir melhor"
Estes acentos são úteis, por distinguirem visualmente realidades auditivas diferentes, ou seja, os vocábulos com tonicidade própria dos vocábulos sem tonicidade alguma (e daí o serem chamados átonos), que se apóiam na palavra que se lhes segue na cadeia sonora da frase, com ela constituindo um único vocábulo fonológico: numa frase como "Ele pára para ouvir melhor" ocorrem apenas quatro acentos, a saber, na primeira sílaba de Ele, na primeira sílaba de pára, na última sílaba de par(a)ouvir e na última de melhor. Esta é uma das regras de acentuação úteis e, portanto, defensáveis, que o novo acordo ortográfico decidiu abolir. Mas, incoerente que é, mantém o acento circunflexo sobre o o do verbo pôr, não vá alguém confundi-lo com a preposição por, que é átona. E durma-se com este barulho.
Poderia dar-lhe outros exemplos de alterações iminentes que reputo danosas à ortoépia, que é a reta pronunciação das palavras do idioma. Mas julgo que os exemplos acima já ilustram suficientemente o que vem por aí. E, se mudar por mudar é frivolidade que nada justifica, mudar para piorar é simplesmente inadmissível.
A unificação desnecessária
Ainda não tive a oportunidade de debruçar-me detidamente sobre cada uma das novas regras, interrogando-me sobre todas as conseqüências a que poderão levar. Um de meus colegas e amigos, contudo, estudioso do idioma e excelente lexicógrafo, já comentou, em conversa particular, que o novo sistema deixa várias questões importantes por resolver. Suponho que o tempo se encarregará de mostrar o acerto da observação de meu amigo.
As mudanças que estão para efetivar-se nada têm que ver com a língua portuguesa, mas única e exclusivamente com a representação escrita da mesma, o que é algo muito diferente. A língua portuguesa não precisa, nem jamais precisou, ser unificada, pela simples razão que sempre foi uma só, sem embargo das diferenças de pronúncia, de ritmo frasal, de escolha vocabular e de construção da frase, fáceis de observar entre as variedades européia, americana e, já agora, africanas do idioma comum (nada digo da recém-criada República de Timor, no sudeste asiático, porque, segundo me consta, embora seja o português a língua oficial da nova nação, é insignificante o número de timorenses que dele se servem).
Um sistema ortográfico pode mudar repentinamente, por lei ou por decreto, e, por vezes, isto ocorre de forma radical: no final da década de
Por uma língua viva
Já as línguas mudam constantemente, mas de modo geralmente imperceptível à maioria dos falantes. Nos anos que se seguiram à chegada e estabelecimento da família real portuguesa à capital da grande colônia americana, a pouco e pouco os nativos do Rio de Janeiro, que, até então, haviam pronunciado o s, quer final, quer medial, seguido de consoante, como o resto do Brasil, ou seja, como uma consoante linguodental surda ou sonora, dependendo do ambiente fonético em que se encontrasse, começaram a imitar a fala da Corte e, com isto, a pronunciar o s à lisboeta, ou seja, como uma consoante palatal surda ou sonora, quer em posição final, quer em posição medial, seguida de consoante.
E é por isso que, até hoje, os cariocas chiam onde os mineiros, os capixabas, os paulistas, os nordestinos, os paraenses e os gaúchos sibilam. Mas esta mudança não se fez por decreto real, visto que rei algum teria o poder de promovê-la. Fez-se espontaneamente e, ao que é provável, despercebida à imensa maioria dos falantes. Pois é assim que as línguas mudam: lentamente, em silêncio, sem parar.
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anita / elza / alice
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03h39
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TOM ZÉ
A VOLTA DO TREM DAS ONZE
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alice
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00h23
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SÃO, SÃO PAULO
TOM ZÉ
São, São Paulo meu amor
São, São Paulo quanta dor
São oito milhões de habitantes
De todo canto em ação
Que se agridem cortesmente
Morrendo a todo vapor
E amando com todo ódio
Se odeiam com todo amor
São oito milhões de habitantes
Aglomerada solidão
Por mil chaminés e carros
Caseados à prestação
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São, São Paulo
Meu amor
São, São Paulo
Quanta dor
Salvai-nos por caridade
Pecadoras invadiram
Todo centro da cidade
Armadas de rouge e batom
Dando vivas ao bom humor
Num atentado contra o pudor
A família protegida
Um palavrão reprimido
Um pregador que condena
Uma bomba por quinzena
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São, São Paulo
Meu amor
São, São Paulo
Quanta dor
Santo Antonio foi demitido
Dos Ministros de cupido
Armados da eletrônica
Casam pela TV
Crescem flores de concreto
Céu aberto ninguém vê
Em Brasília é veraneio
No Rio é banho de mar
O país todo de férias
E aqui é só trabalhar
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São, São Paulo
Meu amor
São, São Paulo
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elza lins
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23h54
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São Paulo, 454 anos
Confissão geral
Tarsila do Amaral
[...] pintei a óleo um quadrinho onde se vê um fundo de quintal com a entrada de meu atelier banhado de sol, um sol — hélas! — bem pouco sol. Para esse atelier da rua Vitória, convergiria mais tarde, em 1922, [...] após a Semana de Arte Moderna, todo o grupo modernista, inclusive Graça Aranha. Formou-se ali o Grupo dos Cinco, com Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Anita Malfatti e eu. Parecíamos uns doidos, em disparada por toda a parte no “Cadillac” de Oswald, numa alegria delirante, à conquista do mundo para renová-lo. Era a “Paulicéia Desvairada” em ação.

Desenho de Anita Malfatti, O GRUPO DOS CINCO, 1922.
Tarsila (no sofá), Mário e Anita (ao piano), Oswald (no centro) e Menotti.
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anita
:: postado às
15h43
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POEMA
O ANO PASSADO
Carlos Drummond de Andrade
O ano passado não passou,
continua incessantemente.
Em vão marco novos encontros.
Todos são encontros passados.
As ruas, sempre do ano passado,
e as pessoas, também as mesmas,
com iguais gestos e falas.
O céu tem exatamente
sabidos tons de amanhecer,
de sol pleno, de descambar
como no repetidíssimo ano passado.
[...]
(Em Corpo, 1984.)
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elza lins
:: postado às
14h30
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Este Natal Carlos Drummond de Andrade — Este Natal anda muito perigoso — concluiu João Brandão, ao ver dois PM travarem pelos braços o robusto Papai Noel, que tentava fugir, e o conduzirem a trancos e barrancos para o Distrito. Se até Papai Noel é considerado fora-da-lei, que não acontecerá com a gente? Logo lhe explicaram que aquele era um falso velhinho, conspurcador das vestes amáveis. Em vez de dar presentes, tomava-os das lojas onde a multidão se comprime, e os vendedores, afobados com a clientela, não podem prestar atenção a tais manobras. Fora apanhado em flagrante, ao furtar um rádio transistor, e teria de despir a fantasia. — De qualquer maneira, este Natal é fogo — voltou a ponderar Brandão, pois se os ladrões se disfarçam De resto, é isso mesmo que o jornal recomenda: "Nesta época do Natal, o melhor é desconfiar sempre". Talvez do próprio Menino Jesus, que, na sua inocência cerâmica, se for de tamanho natural, poderá esconder não sei que mecanismo pérfido, pronto a subtrair tua carteira ou teu anel, na hora em que te curvares sobre o presépio para beijar o divino infante. O gerente de uma loja de brinquedos queixou-se a João que o movimento está fraco, menos por falta de dinheiro que por medo de punguistas e vigaristas. Alertados pela imprensa, os cautelosos preferem não se arriscar a duas eventualidades: serem furtados ou serem suspeitados como afanadores, pois o vendedor precisa desconfiar do comprador: se ele, por exemplo, já traz um pacote, toda cautela é pouca. Vai ver, o pacote tem fundo falso, e destina-se a recolher objetos ao alcance da mão rápida. O punguista é a delicadeza em pessoa, adverte-nos a polícia. Assim, temos de desconfiar de todo desconhecido que se mostre cortês; se ele levar a requintes sua gentileza, o melhor é chamar o Cosme e depois verificar, na delegacia, se se trata de embaixador aposentado, da era de Ataulfo de Paiva e D. Laurinda Santos Lobo, ou de reles lalau. Triste é desconfiar da saborosa moça que deseja experimentar um vestido, experimenta, e sai com ele sem pagar, deixando o antigo, ou nem esse. Acontece — informa um detetive, que nos inocula a suspeita prévia em desfavor de todas as moças agradáveis do Rio de Janeiro. O Natal de pé atrás, que nos ensina o desamor. E mais. Não aceite o oferecimento do sujeito sentado no ônibus, que pretende guardar sobre os joelhos o seu embrulho. Quem use botas, seja ou não Papai Noel, olho nele: é esconderijo de objetos surrupiados. Sua carteira, meu caro senhor, deve ser presa a um alfinete de fralda, no bolso mais íntimo do paletó; e se, ainda assim, sentir-se ameaçado pelo vizinho de olhar suspeito, cerre o bolso com fita durex e passe uma tela de arame fino e eletrificado em redor do peito. Enterrar o dinheiro no fundo do quintal não adianta, primeiro porque não há quintal, e, se houvesse, dos terraços dos edifícios em redor, munidos de binóculos, ladrões implacáveis sorririam da pobre astúcia. Eis os conselhos que nos dão pelo Natal, para que o atravessemos a salvo. Francamente, o melhor seria suprimir o Natal e, com ele, os especialistas em furto natalino. Ou — idéia de João Brandão, o sempre inventivo — comemorá-lo em épocas incertas, sem aviso prévio, no maior silêncio, em grupos pequenos de parentes, amigos e amores, unidos na paz e na confiança de Deus. (14-12-1966) Caminhos de João Brandão, José Olympio, 1970, p. 84.
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anita / elza / alice
:: postado às
17h35
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Rainer Maria Rilke
Procure entrar em si mesmo.
Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: “Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples “sou”, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, a dizer o que vê, vive, ama e perde. (...)
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anita / elza / alice
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14h34
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31 DE OUTUBRO: ANIVERSÁRIO DO POETA MAIOR
Carlos Drummond de Andrade
Também, que idéia a sua: andar a pé,
margeando a Lagoa Rodrigo de Freitas, depois do jantar.
O vulto caminhava
em sua direção, chegou bem perto, estacou à sua frente. Decerto ia
pedir-lhe um auxílio.
— Não tenho trocado. Mas tenho cigarros. Quer
um?
— Não fumo, respondeu o outro.
Então ele queria é saber as
horas. Levantou o antebraço esquerdo, consultou o relógio:
— 9 e 17... 9
e 20, talvez. Andaram mexendo nele lá em casa.
— Não estou querendo saber
quantas horas são. Prefiro o relógio.
— Como?
— Já disse. Vai
passando o relógio.
— Mas ...
— Quer que eu mesmo tire? Pode
machucar.
— Não. Eu tiro sozinho. Quer dizer... Estou meio sem jeito.
Essa fivelinha enguiça quando menos se espera. Por favor, me ajude.
O
outro ajudou, a pulseira não era mesmo fácil de desatar. Afinal, o relógio mudou
de dono.
— Agora posso continuar?
— Continuar o
quê?
— O passeio. Eu estava passeando, não viu?
— Vi,
sim. Espera um pouco.
— Esperar o quê?
— Passa a
carteira.
— Mas...
— Quer que eu também ajude a tirar? Você
não faz nada sozinho, nessa idade?
— Não é isso. Eu pensava que o
relógio fosse bastante. Não é um relógio qualquer, veja bem. Coisa fina. Ainda
não acabei de pagar...
— E eu com isso? Então vou deixar o serviço
pela metade?
— Bom, eu tiro a carteira. Mas vamos fazer um
trato.
— Diga.
— Tou com dois mil cruzeiros. Lhe dou mil e fico
com mil.
— Engraçadinho, hem? Desde quando o assaltante reparte com
o assaltado o produto do assalto?
— Mas você não se identificou como
assaltante. Como é que eu podia saber?
— É que eu não gosto de
assustar. Sou contra isso de encostar o metal na testa do cara. Sou civilizado,
manja?
— Por isso mesmo que é civilizado, você podia rachar comigo o
dinheiro. Ele me faz falta, palavra de honra.
— Pera aí. Se você
acha que é preciso mostrar revólver, eu mostro.
— Não precisa, não
precisa.
— Essa de rachar o legume... Pensa um pouco, amizade. Você
está querendo me assaltar, e diz isso com a maior cara-de-pau.
— Eu,
assaltar?! Se o dinheiro é meu, então estou assaltando a mim
mesmo.
— Calma. Não baralha mais as coisas. Sou eu o assaltante, não
sou?
— Claro.
— Você, o assaltado.
Certo?
— Confere.
— Então deixa de poesia e passa pra cá
os dois mil. Se é que são só dois mil.
— Acha que eu minto? Olha
aqui as quatro notas de quinhentos. Veja se tem mais dinheiro na carteira. Se
achar uma nota de 10, de cinco cruzeiros, de um, tudo é seu. Quando eu confundi
você com um, mendigo (desculpe, não reparei bem) e disse que não tinha trocado,
é porque não tinha trocado mesmo.
— Tá bom, não se
discute.
— Vamos, procure nos... nos escaninhos.
— Sei lá o
que é isso. Também não gosto de mexer nos guardados dos outros. Você me passa a
carteira, ela fica sendo minha, aí eu mexo nela à vontade.
— Deixe
ao menos tirar os documentos?
— Deixo. Pode até ficar com a
carteira. Eu não coleciono. Mas rachar com você, isso de jeito nenhum. É contra
as regras.
— Nem uma de quinhentos? Uma só.
— Nada. O
mais que eu posso fazer é dar dinheiro pro ônibus. Mas nem isso você precisa.
Pela pinta se vê que mora perto.
— Nem eu ia aceitar dinheiro de
você.
— Orgulhoso, hem? Fique sabendo que tenho ajudado muita gente
neste mundo. Bom, tudo legal. Até outra vez. Mas antes, uma
lembrancinha.
Sacou da arma e deu-lhe um tiro no pé.
Texto extraído do livro "Os dias
lindos", Livraria José Olympio Editora — Rio de Janeiro, 1977, pág.
54.
Conheça o autor e sua obra visitando "Biografias".
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anita / elza / alice
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19h21
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Dramatização das pequenas dissonâncias?
Estamos de acordo!
(Francisco Seixas da Costa, embaixador de Portugal no Brasil)
Nos últimos meses, verifica-se que o tema do novo acordo ortográfico da língua portuguesa tem estado em grande evidência no espaço público brasileiro. Nessa abordagem, a posição de Portugal tem merecido algumas referências, em alguns casos com imprecisões que parece importante não deixar passar em claro.
Não interessa fazer aqui um historial do que foram as anteriores tentativas de unificação ortográfica nem elaborar um inventário de supostas culpas pelo seu limitado sucesso. A doutrina, nesse âmbito, divide-se muito. Assim, proponho que olhemos adiante.
A reiteração da vontade de caminhar para uma norma comum, bem como o surgimento de novos países de expressão portuguesa, conduziu, em 1990, à assinatura de um novo acordo ortográfico, o qual deveria ter entrado em vigor, para todos os então sete subscritores, em 1994. Portugal ratificou esse acordo logo, em 1991.
Dois protocolos modificativos foram, entretanto, assinados. Um primeiro, em 1998, eliminando a data de 1994 como limite para a entrada em vigor do acordo, por se constatar a inexistência de ratificações suficientes até então.
Um segundo, consagrando a entrada de Timor Leste e prevendo que o texto do acordo pudesse entrar em vigor desde que três países tivessem depositado entretanto os instrumentos de ratificação.
Em finais de 2006, verificou-se que Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe haviam ratificado esse segundo protocolo, pelo que é entendido que o acordo pode entrar em vigor. Algumas vozes consideram que, não obstante esses requisitos formais estarem preenchidos, seria importante que Portugal estivesse associado, desde o início, à entrada em vigor do novo acordo.
Convém fazer aqui um parêntesis para sublinhar que, pela aplicação do acordo, 1,6% do vocabulário usado em Portugal (e nos restantes países que seguem a norma portuguesa) deverá sofrer adaptações. No Brasil, essas mudanças abrangem apenas 0,5% das palavras.
Mesmo assim, tem vindo a ser anunciado que o Brasil prevê a necessidade de um período de transição para a plena aplicação do acordo, de forma a permitir aos seus agentes editoriais fasearem os impactos das mudanças, em especial nos dicionários e livros escolares.
Gostaria de deixar bem claro que Portugal defende, como sempre defendeu, a importância de se caminhar num processo de harmonização ortográfica, em especial pela dimensão estratégica desse passo na capacidade de afirmação da língua portuguesa no mundo.
Noto que, pela parte portuguesa, o acordo poderia ter entrado em vigor em 1994, o que não aconteceu por razões a que Portugal foi então alheio. A circunstância de tal não ter ocorrido acabou por suscitar no meu país uma reflexão mais amadurecida sobre os efeitos, em especial editoriais, das mudanças que o acordo implicaria.
O governo português não pode deixar de ser sensível a esse debate, tanto mais que as alterações que atingiriam a norma de Portugal são bem mais significativas que no Brasil.
É do saldo final dessa reflexão, a qual deverá atentar nos períodos de vigência dos manuais escolares, que vai depender a definição da posição portuguesa, que também tem de passar pelo necessário período de adaptação, antes da vinculação definitiva a uma futura norma comum.
Nas relações luso-brasileiras, parece por vezes existir um tropismo no sentido da dramatização das pequenas dissonâncias, como se o entendimento mútuo tivesse ciclicamente de passar por renovadas provas.
A questão do acordo ortográfico parece ser um desses temas, como se uns anos a mais ou a menos na conclusão trouxessem algum mal ao mundo, que viveu sem ele até agora.
O leitor ajuizará sobre se estaremos assim tão distantes: este artigo foi escrito sem recurso a nenhuma palavra que necessite de harmonização ortográfica. Esta é a melhor prova de que, afinal, e no essencial, estamos de acordo!
O Estado de S.Paulo, 15 set. 2007.
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anita / elza / alice
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01h00
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DEIXEM A NOSSA ORTOGRAFIA EM PAZ!
por Cláudio Moreno
Neste mar quase infinito em que se transformou a internet, às vezes é quase impossível descobrir a verdadeira origem das informações - e dos boatos - que chegam até nossa casa. Nas últimas semanas, muita gente recebeu um e-mail que anuncia, para o final deste ano, a chegada de uma tal "reforma da Língua Portuguesa". Uma jovem leitora, naturalmente preocupada com a educação de sua filhinha, que ainda está na pré-escola, pediu que eu comentasse a notícia, porque - diz ela - "eu preciso saber se isso vai ser bom ou ruim para a minha filha". Pois eu responderia, sem a menor hesitação, que esta catástrofe, se chegar a ocorrer, vai ser ruim para ela e para todos nós. Felizmente, como no caso do aquecimento global, há sempre a esperança de que o bom senso volte a prevalecer e consigamos evitar o desastre anunciado. Explico.
No mundo inteiro, o Português foi um dos poucos idiomas que editaram uma norma "oficial" para regular sua ortografia. A iniciativa é relativamente recente, pois até a II Grande Guerra cada cidadão podia escrever como lhe dava na veneta, usando acentos, agás, ípsilons e letras mudas a seu bel-prazer. Esta situação absurda, impensável nos dias de hoje, felizmente terminou quando o Brasil e Portugal assinaram o Acordo de 1943, incentivado pelo nosso benigno ditador Getúlio Vargas como parte de seu esforço para modernizar o país. É este o texto que serve de base para aquele sistema que o brasileiro médio chama respeitosamente de "ortografia oficial", atribuindo-lhe uma infalibilidade maior que a do papa, embora os estudiosos saibam que ele (o acordo, é claro) não é tão oficial nem tão infalível assim.
Em Portugal, discussões posteriores levaram a uma versão ligeiramente modificada desse acordo, transformada em lei por aquele país em 1945; o Brasil, no entanto, não quis acompanhá-lo, ficando mesmo com o texto de 1943 - o que naturalmente gerou algumas diferenças entre o sistema usado aqui e o sistema adotado por Portugal (e pelas colônias que, na época, estavam sob seu domínio). Abrimos um livro editado em Portugal e encontramos colecção, adopção, eléctrico, facto, subtil, sumptuoso; amámos, trabalhámos, fémur, bónus, António, sinónimo - onde, no Brasil, encontramos coleção, adoção, elétrico, fato, sutil, suntuoso; amamos, trabalhamos, fêmur, bônus, Antônio, sinônimo. Se isso nunca dissuadiu os bons leitores portugueses de ler publicações brasileiras (ou vice-versa), não há dúvida, por outro lado, de que essas diferenças constituem um fator perturbador para o leitor mais simples ou para o público infantil.
Talvez por isso (ou sob esse pretexto), surgiu, a partir da década de 80, um movimento messiânico para "unificar a língua portuguesa", agora incluindo os países lusófonos que haviam conquistado sua soberania, como Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, entre outros. Formaram-se grupos e comissões, redigiram-se propostas e cartas de intenção, fixaram-se projetos e anteprojetos sucessivos, com objeções de todos os lados, tentando chegar-se a essa "unificação", numa versão singularíssima da Torre de Babel que muito teria agradado a Jorge Luis Borges por sua ironia: agora todos falam a mesma língua, mas defendem projetos completamente diferentes para o edifício que pretendem construir. Como em Babel, não haverá torre. O produto de todas essas idas e vindas foi uma colcha de retalhos que precisa, para entrar em vigor, da aprovação do Legislativo de todos os países participantes - o que, felizmente, não está sendo fácil de obter. Por um lado, porque alguns desconfiam de que o espírito oculto do Acordo seja apenas o de favorecer grandes grupos editoriais, que teriam assim um mercado muito maior; por outro, porque uma mudança na ortografia - seja qual for a sua amplitude - traz a imediata necessidade de substituir os livros das bibliotecas escolares de todo o país. A criança que está aprendendo a escrever no novo sistema não pode ficar em contato com publicações que utilizem o sistema antigo; a atualização das bibliotecas representaria um gasto pesado demais para todos, ou quase todos, os países lusófonos, que ainda enfrentam graves problemas estruturais.
Além disso, os termos do acordo favoreceriam alguns países e prejudicariam outros - especialmente o Brasil. A meu ver, nós deveríamos ser os maiores interessados em "melar" essa irresponsável aventura, pois - se fosse aprovada a reforma - nós teremos de ceder muito mais que os outros, abandonando hábitos ortográficos já consolidados em nosso meio para contentar a pressão de Portugal e de suas antigas colônias, que, por razões históricas, estão claramente dentro da área de influência cultural lusitana. Mas isso eu explico na próxima coluna.
Zero Hora, Porto Alegre, 5 maio 2007.
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anita / elza / alice
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"Pode parecer surpreendente, mas dezenas de gatos, espalhados pelos países mais diferentes, demonstraram - como sempre! - sabedoria e escolheram viver no melhor dos ambientes: em meio aos livros." RODRIGO GURGEL
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