ESPANANDO A POEIRA, TIRANDO AS TEIAS E ABRINDO A JANELA PRA VENTILAR

Depois de receber uma ilustre visita, estamos pensando em voltar aos poucos.

Por enquanto, estamos em cima da prancheta rabiscando as nossas idéias.

Recentemente, conheci uma pessoa fantástica. Conversamos muito. Relembramos nomes importantes da literatura infantil. Nomes que marcaram nossa infância. Uma volta ao passado. Uma época em que mergulhávamos num mundo de sonhos, fantasias, aventuras, terror...

Saudade.

 

 

:: anita / elza / alice :: postado às 11h48
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Nova ortografia, novos desafios da língua portuguesa

[ desafio pra entender as regras, isso sim!!!! ]

 

José Maria Mayrink,

enviado especial de O Estado de S. Paulo


RIO - Em caso de dúvida, consulte-se o pai dos burros, nome dado ao dicionário na linguagem coloquial. Agora escrito sem hifens, conforme a nova ortografia, que aboliu esse diacrítico ou sinal gráfico do pai-dos-burros, assim registrado por Antônio Houaiss, Aurélio Buarque de Hollanda, Caldas Aulete e outros renomados mestres da escrita correta. O acordo ortográfico da língua portuguesa - tratado internacional que foi assinado em 1990 e começou a vigorar no primeiro dia de 2009, com quatro anos de tolerância para ser aplicado - veio alegadamente para simplificar, mas não está sendo fácil entender suas normas. Os critérios de mudança obedecem a razões históricas, culturais e filológicas que só os estudiosos são capazes de interpretar com acerto. O pai dos burros mais simples será o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, que a Academia Brasileira de Letras (ABL) publicará pela Editora Global (o lançamento está marcado para 2 de março), com cerca de 370 mil palavras - uma em cada linha, só com a classificação gramatical, sem o significado, que se encontra nos dicionários. Preparado pela equipe de lexicógrafos da ABL, com supervisão do professor e acadêmico Evanildo Bechara, a obra terá tiragem inicial de 10 mil exemplares. Além da edição impressa, haverá Brasileira de Letras (ABL) uma versão que poderá ser consultada pela internet. "Ampliamos a 4ª edição do Vocabulário Ortográfico, publicada em 2004", informa Bechara, mostrando o volume de 840 páginas e 360 mil palavras que serviu de base para a atualização. A primeira edição, lançada após a reforma ortográfica de 1943, tinha 60 mil palavras. "Os usuários mais interessados do Vocabulário ortográfico serão universidades, órgãos públicos e departamentos de língua e literatura portuguesas no exterior", prevê Jefferson Alves, diretor da Global. A editora esperava começar a paginação e diagramação amanhã, mas Bechara pediu prazo de mais dez dias para fazer alguns acertos.

A edição brasileira poderá ser utilizada por mais países, pois não se tem notícia de que alguma outra esteja sendo preparada. Como Portugal se deu seis anos para aplicar o acordo, a Academia das Ciências de Lisboa ainda não falou em vocabulário. Editoras e linguistas trabalham também na adaptação de seus dicionários, enquanto professores e filólogos lançam livros sobre as novas regras. Pioneira nessa iniciativa, a ABL lançou em outubro, pela Companhia Editora Nacional, o Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, com uma tiragem de 10 mil exemplares. Ainda disponível nas livrarias, a obra será relançada dia 15, desta vez com 20 mil cópias, para corrigir um erro de interpretação do acordo. Foram grafadas com hífen 21 palavras com o prefixo re antes da letra e - de reeditar a reexaminar - que devem ser escritas sem hífen. A gerente editorial, Célia de Assis, atribui o equívoco ao vaivém das correções.


"Entendemos que, como no caso do prefixo co previsto pelo acordo, também os prefixos re, pre e pro dispensam o hífen, mesmo quando o segundo elemento se inicia por e ou o", disse Bechara. Autor de dois livros sobre a questão - A Nova Ortografia e O que muda com o Novo Acordo Ortográfico - o professor dá uma longa lista de exemplos de exceções à regra geral, segundo a qual se deve usar o hífen quando a vogal do prefixo se repete no segundo elemento, como em micro-ondas. No caso de encontro de uma vogal com a letra h, elimina-se o h, como na palavra coabitar. Há palavras nas quais a eliminação do h parece estranha. O exemplo mais gritante é o substantivo e adjetivo coerdeiro, que passa a ser escrito dessa maneira, quando antes se grafava co-herdeiro. A mudança é tão estranha que até o Dicionário Escolar da ABL mantém a forma antiga, com hífen, outra falha que terá de ser corrigida na próxima edição. Mais ainda: o próprio texto oficial do acordo ortográfico usa a palavra co-herdeiro, com hífen, embora o acordo anterior, de 1986, que lhe serviu de base, tenha dado preferência à forma coerdeiro. "Nós não inventamos nada, a Academia apenas aplicou a regra adotada para o prefixo co, que, nesse caso, derruba o h e elimina o hífen, como na palavra coabitar, porque se trata do encontro de duas vogais, ou de uma vogal com h", disse Bechara. Será preciso prestar muita atenção para a aplicação das regras, sobretudo no emprego do hífen, porque usar ou não esse sinal gráfico depende, muitas vezes, do sentido dos termos separados por ele. Escreve-se, por exemplo, afro-brasileiro com hífen, mas afrodescendente sem hífen, porque neste caso o prefixo afro é empregado como adjetivo. "Os afro-brasileiros (substantivo) são afrodescendentes (adjetivo)", assim apareceria o afro numa mesma frase. "O problema do hífen é o maior desafio. Cada diacrítico (sinal gráfico), como o acento agudo, o grave, o circunflexo, tem uma função específica. Ao hífen atribuíram-se várias funções: fonética, gramatical, semântica, estilística", reconhece Bechara, prevendo dificuldades que os gramáticos terão de resolver. Mesmo os pais dos burros - os dicionários e vocabulários -, terão de ser frequentemente atualizados.


[...]


"O contexto poderia resolver quase todas as dúvidas, com exceção dos casos pôr e pôde", afirma o acadêmico responsável pela aplicação do acordo ortográfico. Para ele, a tônica da reforma deve ser a simplificação. Numa frase como "o coração não é a sede da vingança" não se vai usar o circunflexo, embora a palavra sede possa significar tanto a vontade de fazer vingança como o lugar em que se fixa o desejo de vingança. Simples mesmo foi a eliminação do trema, riscado de vez das palavras portuguesas, devendo ser usado apenas em nomes estrangeiros, como Bündchen. A falta do acento não influencia na pronúncia. "Machado de Assis escrevia linguiça, mas com certeza pronunciava lingüiça, separando u e i, como se houvesse trema", disse Bechara. Ao restituir ao texto a função explicativa, com a dispensa do acento diferencial, o acordo estendeu essa função às locuções. Dia a dia é uma locução que agora se escreve sem hífen, seja adverbial (que já se escrevia sem hífen) ou substantiva (o seu dia-a-dia, com hífen). Outro exemplo é a expressão à toa - agora assim -, que não tinha hífen como advérbio e tinha como adjetivo.


AS REGRAS DO HÍFEN... E EXCEÇÕES À REGRA


A nova regra geral do hífen diz que não se deve usá-lo quando o primeiro elemento da palavra termina com letra diferente da que inicia o segundo. Por exemplo: autoestrada, infraestrutura. O hífen deve ser usado quando o primeiro elemento termina com vogal ou consoante igual à letra que inicia o segundo: micro-ônibus, arqui-inimigo. Exceções: segundo o acadêmico Evanildo Bechara, os prefixos co, re, pre e pro dispensam o hífen quando o segundo elemento inicia por e ou o como em cooperar e reeditar. Não usar o hífen quando o primeiro elemento termina com vogal e o segundo começa com consoante, exceto o h. Exemplos: anteprojeto, anti-herói. Quando o segundo elemento começa com r ou s, essas letras deverão ser dobradas: suprassumo, antirrugas. Não usar o hífen quando o primeiro elemento termina com consoante e o segundo se inicia com vogal (há exceção, como mal-estar): hiperacidez, interestadual. Outras exceções: os prefixos ex, bem, sem, além, aquém, recém, pós, pré e vice sempre exigem hífen. Exemplos: ex-patrão, bem-estar, sem-terra, além-mar, pós-graduação, recém-casado, pré-história, vice-presidente. O prefixo sub deve ser usado com hífen diante de b, h e r: sub-base, sub-região, sub-humano. Já com circum e pan, o hífen será usado diante de m, n, h e vogal: circum-navegação, pan-americano.

:: anita / elza / alice :: postado às 13h16
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AQUI, A COERÊNCIA DE UM PROFESSOR DE PORTUGUÊS QUE GOSTA DE GATOS E É TORCEDOR DO FLUMINENSE

JORNAL DO BRASIL, 14 jun. 2008

 

Por Sergio de Carvalho Pachá

lexicógrafo-chefe da Academia Brasileira de Letras

 

 

Sou favorável à unificação dos sistemas ortográficos do Brasil e de Portugal. Mas sou desfavorável a que se façam as coisas pela metade ou a que se mude uma coisa boa em outra pior.

Dou-lhe exemplos de um e outro caso. Uma das mais notórias falhas do sistema ortográfico de 1943, ainda hoje vigente no Brasil, com as modificações nele introduzidas em 1971, diz respeito às regras que governam o uso do hífen. Em matéria de arbitrariedade e incoerência, acredite, elas são verdadeiramente imbatíveis. Assim, sempre que um vocábulo com h inicial é precedido pelos prefixos ante-, anti-, arqui-, auto-, contra-, ex-, extra-, hiper-, infra-, intra-, neo-, pan-, pós-, pré-, pro-, proto-, pseudo-, sem-, semi-, sobre-, sota-, soto-, super-, ultra-, vice e vizo-, o hífen é de rigor: ante-hipófise, anti-herói, arqui-hiperbólico, auto-hipnose, contra-habitual, ex-heroinômano, extra-hospitalar, hiper-hidrose, infra-hióideo, intra-hepático, neo-hipocrático, pan-helênico, pós-hipofisário, pré-hominídeo, pró-homem, proto-história, pseudo-hérnia, semi-hebdomadário, sobre-humano, super-herói, ultra-hipérbole. Se, porém, o prefixo for a- ou sua variante an-, des-, in- e sub- , deve-se eliminar o agá etimológico inicial e adjungir o prefixo à vogal que se lhe segue: teremos, assim, aistórico ao lado de anti-histórico, anepático ao lado de supra-hepático, desumano, inumano e subumano ao lado de extra-humano, pré-humano e sobre-humano. Há alguma lógica nisto? Nenhuma.

 

Anti-histórico e aistórico

Ora bem: que fazem as novas regras ortográficas prestes a serem impostas aos países de língua portuguesa que aceitaram e promulgaram o tal acordo? Consertam o disparate clamoroso que manda escrever anti-histórico e aistórico, sobre-humano e subumano, supra-hepático e anepático? De modo algum. Fica tudo como dantes, quartel-general em Abrantes.

Por outro lado, a lei 5.765, de 18 de dezembro de 1971, que, em boa hora, suprimiu o acento circunflexo diferencial do e e do o fechado das palavras homógrafas de outras cujo e ou o tônico fossem abertos (escrevia-se, por exemplo, dêle, para ninguém confundir este pronome com a terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo delir, dele, e tôda, porque em algum lugar do mundo existe um pássaro fissirrostro chamado toda, com o aberto), teve o bom senso de deixar intocada a regra que prescrevia se assinalasse com acento agudo a sílaba tônica dos vocábulos que tivessem homógrafos átonos.

Por esta razão grafamos pára, do verbo parar, a fim de distingui-lo da preposição para, que é átona; péla, substantivo feminino e terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo pelar, a fim de distingui-lo de pela, que vem a ser a contração da antiga preposição per com a forma arcaica do artigo definido feminino, la, contração esta que é átona.

 

"Ele pára para ouvir melhor"

Estes acentos são úteis, por distinguirem visualmente realidades auditivas diferentes, ou seja, os vocábulos com tonicidade própria dos vocábulos sem tonicidade alguma (e daí o serem chamados átonos), que se apóiam na palavra que se lhes segue na cadeia sonora da frase, com ela constituindo um único vocábulo fonológico: numa frase como "Ele pára para ouvir melhor" ocorrem apenas quatro acentos, a saber, na primeira sílaba de Ele, na primeira sílaba de pára, na última sílaba de par(a)ouvir e na última de melhor. Esta é uma das regras de acentuação úteis e, portanto, defensáveis, que o novo acordo ortográfico decidiu abolir. Mas, incoerente que é, mantém o acento circunflexo sobre o o do verbo pôr, não vá alguém confundi-lo com a preposição por, que é átona. E durma-se com este barulho.

Poderia dar-lhe outros exemplos de alterações iminentes que reputo danosas à ortoépia, que é a reta pronunciação das palavras do idioma. Mas julgo que os exemplos acima já ilustram suficientemente o que vem por aí. E, se mudar por mudar é frivolidade que nada justifica, mudar para piorar é simplesmente inadmissível.

 

A unificação desnecessária

Ainda não tive a oportunidade de debruçar-me detidamente sobre cada uma das novas regras, interrogando-me sobre todas as conseqüências a que poderão levar. Um de meus colegas e amigos, contudo, estudioso do idioma e excelente lexicógrafo, já comentou, em conversa particular, que o novo sistema deixa várias questões importantes por resolver. Suponho que o tempo se encarregará de mostrar o acerto da observação de meu amigo.

As mudanças que estão para efetivar-se nada têm que ver com a língua portuguesa, mas única e exclusivamente com a representação escrita da mesma, o que é algo muito diferente. A língua portuguesa não precisa, nem jamais precisou, ser unificada, pela simples razão que sempre foi uma só, sem embargo das diferenças de pronúncia, de ritmo frasal, de escolha vocabular e de construção da frase, fáceis de observar entre as variedades européia, americana e, já agora, africanas do idioma comum (nada digo da recém-criada República de Timor, no sudeste asiático, porque, segundo me consta, embora seja o português a língua oficial da nova nação, é insignificante o número de timorenses que dele se servem).

Um sistema ortográfico pode mudar repentinamente, por lei ou por decreto, e, por vezes, isto ocorre de forma radical: no final da década de 1920, a Turquia substituiu seu sistema de escrita, baseado no alfabeto árabe, pelo alfabeto latino.

 

Por uma língua viva

Já as línguas mudam constantemente, mas de modo geralmente imperceptível à maioria dos falantes. Nos anos que se seguiram à chegada e estabelecimento da família real portuguesa à capital da grande colônia americana, a pouco e pouco os nativos do Rio de Janeiro, que, até então, haviam pronunciado o s, quer final, quer medial, seguido de consoante, como o resto do Brasil, ou seja, como uma consoante linguodental surda ou sonora, dependendo do ambiente fonético em que se encontrasse, começaram a imitar a fala da Corte e, com isto, a pronunciar o s à lisboeta, ou seja, como uma consoante palatal surda ou sonora, quer em posição final, quer em posição medial, seguida de consoante.

E é por isso que, até hoje, os cariocas chiam onde os mineiros, os capixabas, os paulistas, os nordestinos, os paraenses e os gaúchos sibilam. Mas esta mudança não se fez por decreto real, visto que rei algum teria o poder de promovê-la. Fez-se espontaneamente e, ao que é provável, despercebida à imensa maioria dos falantes. Pois é assim que as línguas mudam: lentamente, em silêncio, sem parar.

 

:: anita / elza / alice :: postado às 03h39
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TOM ZÉ

A VOLTA DO TREM DAS ONZE


:: alice :: postado às 00h23
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SÃO, SÃO PAULO

TOM ZÉ

São, São Paulo meu amor
São, São Paulo quanta dor
São oito milhões de habitantes
De todo canto em ação
Que se agridem cortesmente
Morrendo a todo vapor
E amando com todo ódio
Se odeiam com todo amor
São oito milhões de habitantes
Aglomerada solidão
Por mil chaminés e carros
Caseados à prestação
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São, São Paulo
Meu amor
São, São Paulo
Quanta dor
Salvai-nos por caridade
Pecadoras invadiram
Todo centro da cidade
Armadas de rouge e batom
Dando vivas ao bom humor
Num atentado contra o pudor
A família protegida
Um palavrão reprimido
Um pregador que condena
Uma bomba por quinzena
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São, São Paulo
Meu amor
São, São Paulo
Quanta dor
Santo Antonio foi demitido
Dos Ministros de cupido
Armados da eletrônica
Casam pela TV
Crescem flores de concreto
Céu aberto ninguém vê
Em Brasília é veraneio
No Rio é banho de mar
O país todo de férias
E aqui é só trabalhar
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São, São Paulo
Meu amor
São, São Paulo

:: elza lins :: postado às 23h54
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São Paulo, 454 anos

Confissão geral


Tarsila do Amaral


[...] pintei a óleo um quadrinho onde se vê um fundo de quintal com a entrada de meu atelier banhado de sol, um sol — hélas! — bem pouco sol. Para esse atelier da rua Vitória, convergiria mais tarde, em 1922, [...] após a Semana de Arte Moderna, todo o grupo modernista, inclusive Graça Aranha. Formou-se ali o Grupo dos Cinco, com Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Anita Malfatti e eu. Parecíamos uns doidos, em disparada por toda a parte no “Cadillac” de Oswald, numa alegria delirante, à conquista do mundo para renová-lo. Era a “Paulicéia Desvairada” em ação.



Desenho de Anita Malfatti, O GRUPO DOS CINCO, 1922.
Tarsila (no sofá), Mário e Anita (ao piano), Oswald (no centro) e Menotti.
Em Nádia Battella Gotlib, Tarsila do Amaral: a modernista. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 1998. p. 61.


:: anita :: postado às 15h43
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POEMA

O ANO PASSADO

Carlos Drummond de Andrade

O ano passado não passou,

continua incessantemente.

Em vão marco novos encontros.

Todos são encontros passados. 

As ruas, sempre do ano passado,

e as pessoas, também as mesmas,

com iguais gestos e falas.

O céu tem exatamente

sabidos tons de amanhecer,

de sol pleno, de descambar

como no repetidíssimo ano passado. 

[...]

  (Em Corpo, 1984.)

 

:: elza lins :: postado às 14h30
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Este Natal

 

Carlos Drummond de Andrade

 

 

— Este Natal anda muito perigoso concluiu João Brandão, ao ver dois PM travarem pelos braços o robusto Papai Noel, que tentava fugir, e o conduzirem a trancos e barrancos para o Distrito. Se até Papai Noel é considerado fora-da-lei, que não acontecerá com a gente?

Logo lhe explicaram que aquele era um falso velhinho, conspurcador das vestes amáveis. Em vez de dar presentes, tomava-­os das lojas onde a multidão se comprime, e os vendedores, afobados com a clientela, não podem prestar atenção a tais manobras. Fora apanhado em flagrante, ao furtar um rádio transistor, e teria de despir a fantasia.

— De qualquer maneira, este Natal é fogo —  voltou a ponderar Brandão, pois se os ladrões se disfarçam em Papai Noel, que garantia tem a gente diante de um bispo, de um almirante, de um astronauta? Pode ser de verdade, pode ser de mentira; acabou-se a confiança no próximo.

De resto, é isso mesmo que o jornal recomenda: "Nesta época do Natal, o melhor é desconfiar sempre". Talvez do próprio Menino Jesus, que, na sua inocência cerâmica, se for de tamanho natural, poderá esconder não sei que mecanismo pérfido, pronto a subtrair tua carteira ou teu anel, na hora em que te curvares sobre o presépio para beijar o divino infante.

O gerente de uma loja de brinquedos queixou-se a João que o movimento está fraco, menos por falta de dinheiro que por medo de punguistas e vigaristas. Alertados pela imprensa, os cautelosos preferem não se arriscar a duas eventualidades: serem furtados ou serem suspeitados como afanadores, pois o vende­dor precisa desconfiar do comprador: se ele, por exemplo, já traz um pacote, toda cautela é pouca. Vai ver, o pacote tem fundo falso, e destina-se a recolher objetos ao alcance da mão rápida.

O punguista é a delicadeza em pessoa, adverte-nos a polícia. Assim, temos de desconfiar de todo desconhecido que se mostre cortês; se ele levar a requintes sua gentileza, o melhor é chamar o Cosme e depois verificar, na delegacia, se se trata de embaixador aposentado, da era de Ataulfo de Paiva e D. Laurinda Santos Lobo, ou de reles lalau.

Triste é desconfiar da saborosa moça que deseja experimentar um vestido, experimenta, e sai com ele sem pagar, deixando o antigo, ou nem esse. Acontece informa um detetive, que nos inocula a suspeita prévia em desfavor de todas as moças agradáveis do Rio de Janeiro. O Natal de pé atrás, que nos ensina o desamor.

E mais. Não aceite o oferecimento do sujeito sentado no ônibus, que pretende guardar sobre os joelhos o seu embrulho.

Quem use botas, seja ou não Papai Noel, olho nele: é esconderijo de objetos surrupiados. Sua carteira, meu caro senhor, deve ser presa a um alfinete de fralda, no bolso mais íntimo do paletó; e se, ainda assim, sentir-se ameaçado pelo vizinho de olhar suspeito, cerre o bolso com fita durex e passe uma tela de arame fino e eletrificado em redor do peito. Enterrar o dinheiro no fundo do quintal não adianta, primeiro porque não há quintal, e, se houvesse, dos terraços dos edifícios em redor, munidos de binóculos, ladrões implacáveis sorririam da pobre astúcia.

Eis os conselhos que nos dão pelo Natal, para que o atravessemos a salvo. Francamente, o melhor seria suprimir o Natal e, com ele, os especialistas em furto natalino. Ou —  idéia de João Brandão, o sempre inventivo   comemorá-lo em épocas incertas, sem aviso prévio, no maior silêncio, em grupos pequenos de parentes, amigos e amores, unidos na paz e na confiança de Deus.

 

 

(14-12-1966)

 

 

 

Caminhos de João Brandão, José Olympio, 1970, p. 84.

:: anita / elza / alice :: postado às 17h35
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Rainer Maria Rilke

 

Procure entrar em si mesmo.

Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: “Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples “sou”, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, a dizer o que vê, vive, ama e perde. (...)

 

 

:: anita / elza / alice :: postado às 14h34
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31 DE OUTUBRO: ANIVERSÁRIO DO POETA MAIOR

 

DEPOIS DO JANTAR

 Carlos Drummond de Andrade

 

Também, que idéia a sua: andar a pé, margeando a Lagoa Rodrigo de Freitas, depois do jantar.

O vulto caminhava em sua direção, chegou bem perto, estacou à sua frente. Decerto ia pedir-lhe um auxílio.

— Não tenho trocado. Mas tenho cigarros. Quer um?

— Não fumo, respondeu o outro.

Então ele queria é saber as horas. Levantou o antebraço esquerdo, consultou o relógio:

— 9 e 17... 9 e 20, talvez. Andaram mexendo nele lá em casa.

— Não estou querendo saber quantas horas são. Prefiro o relógio.

— Como?

— Já disse. Vai passando o relógio.

— Mas ...

— Quer que eu mesmo tire? Pode machucar.

— Não. Eu tiro sozinho. Quer dizer... Estou meio sem jeito. Essa fivelinha enguiça quando menos se espera. Por favor, me ajude.

O outro ajudou, a pulseira não era mesmo fácil de desatar. Afinal, o relógio mudou de dono.

— Agora posso continuar?

— Continuar o quê?

— O passeio. Eu estava passeando, não viu?

— Vi, sim. Espera um pouco.

— Esperar o quê?

— Passa a carteira.

— Mas...

— Quer que eu também ajude a tirar? Você não faz nada sozinho, nessa idade?

— Não é isso. Eu pensava que o relógio fosse bastante. Não é um relógio qualquer, veja bem. Coisa fina. Ainda não acabei de pagar...

— E eu com isso? Então vou deixar o serviço pela metade?

— Bom, eu tiro a carteira. Mas vamos fazer um trato.

— Diga.

— Tou com dois mil cruzeiros. Lhe dou mil e fico com mil.

— Engraçadinho, hem? Desde quando o assaltante reparte com o assaltado o produto do assalto?

— Mas você não se identificou como assaltante. Como é que eu podia saber?

— É que eu não gosto de assustar. Sou contra isso de encostar o metal na testa do cara. Sou civilizado, manja?

— Por isso mesmo que é civilizado, você podia rachar comigo o dinheiro. Ele me faz falta, palavra de honra.

— Pera aí. Se você acha que é preciso mostrar revólver, eu mostro.

— Não precisa, não precisa.

— Essa de rachar o legume... Pensa um pouco, amizade. Você está querendo me assaltar, e diz isso com a maior cara-de-pau.

— Eu, assaltar?! Se o dinheiro é meu, então estou assaltando a mim mesmo.

— Calma. Não baralha mais as coisas. Sou eu o assaltante, não sou?

— Claro.

— Você, o assaltado. Certo?

— Confere.

— Então deixa de poesia e passa pra cá os dois mil. Se é que são só dois mil.

— Acha que eu minto? Olha aqui as quatro notas de quinhentos. Veja se tem mais dinheiro na carteira. Se achar uma nota de 10, de cinco cruzeiros, de um, tudo é seu. Quando eu confundi você com um, mendigo (desculpe, não reparei bem) e disse que não tinha trocado, é porque não tinha trocado mesmo.

— Tá bom, não se discute.

— Vamos, procure nos... nos escaninhos.

— Sei lá o que é isso. Também não gosto de mexer nos guardados dos outros. Você me passa a carteira, ela fica sendo minha, aí eu mexo nela à vontade.

— Deixe ao menos tirar os documentos?

— Deixo. Pode até ficar com a carteira. Eu não coleciono. Mas rachar com você, isso de jeito nenhum. É contra as regras.

—  Nem uma de quinhentos? Uma só.

—  Nada. O mais que eu posso fazer é dar dinheiro pro ônibus. Mas nem isso você precisa. Pela pinta se vê que mora perto.

—  Nem eu ia aceitar dinheiro de você.

— Orgulhoso, hem? Fique sabendo que tenho ajudado muita gente neste mundo. Bom, tudo legal. Até outra vez. Mas antes, uma lembrancinha.

Sacou da arma e deu-lhe um tiro no pé.


Texto extraído do livro "Os dias lindos", Livraria José Olympio Editora — Rio de Janeiro, 1977, pág. 54.

Conheça o autor e sua obra visitando "
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:: anita / elza / alice :: postado às 19h21
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